segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O Teatro do Absurdo

Sinto o veludo vermelho no meu rosto

Ele se rasga, me jogam no palco

Hesito, mas não tenho escolha

De agora em diante sou livre

Posso representar o que quiser

Desde que represente qualquer coisa

Uma luz estoura na minha visão, alguém tosse

"Anda, comece logo a peça", alguém pensa

Me pergunto o que estes rostos querem ver

Sou um artista imoral, preciso deles para ser

O que esta velha caquética espera de mim?

Velha demais para comédias, velha demais para tragédias

Demasiadamente velha para seja lá o que for

Não farei nada. E ela poderá regozijar-se

Avisto uma caderneta e uma caneta, uma caneta sofisticada

Ah sim, tem também um sujeitinho as segurando

Ele se endireita no assento e suspira. Está impaciente

Aguarda que eu lhe dê algo para anotar. Que situação...

Como isso me deixa inquieto! a caneta começa a sacudir

"Você sabe quem eu sou? não sou uma caneta qualquer!"

As pernas do sujeitinho também sacodem. E a caderneta?

A caderneta é a única que ainda espera pacientemente

Me concentro nela para para ter sossego por um tempo

Mas a humildade da caderneta não vai durar muito

Algo vai acontecer. Vou ser abandonado por todos

Ouço um murmurinho na platéia. Estou exausto

Eles devem ter percebido. A velha me olha com raiva

Fugi do personagem que ela havia projetado em mim

O público me deu um papel e me cobrou uma boa interpretação

Se ao menos me dissessem qual é o papel...

Só sei quem sou olhando para eles. E eles não sabem nada!

Foram quebrados todos os espelhos do teatro, e eles me olham

Se me olham, devem ver alguma coisa. Mas o que?!

Fito a caderneta, uma esperança. Me iludo em vão, ela já titubeia

Sua existência desaba nas pernas do sujeitinho. Espero minha sentença

O teatro se esvazia. Agora tudo me é alheio. Um choro tenta sair

Inútil, não tenho lágrimas dentro de mim. Minhas pernas vacilam, começo a cair

A caderneta volta à minha cabeça e desaba novamente. Isso existe?

Desperto e ainda vejo o sujeitinho deixando o lugar. Isso existe

Finalmente dou com a cara no palco, um barulho seco produz eco

O sujeitinho se vira, levanta a caneta sofisticada com uma mão,

Abre a caderneta com a outra e anota qualquer coisa

Eu tento gritar, mas o grito sai enfermo e a caderneta vai embora

Saiu totalmente indiferente e me privou de mim mesmo

Pensei: "Que direito alguém tem de reduzir um homem a rascunho?"

Mas logo depois ri quando percebi a entonação que dei para "homem"

Ri mais, mais trocistamente quando repeti "direito"

Ria dos que enchem a boca para proclamar os "direitos do homem"

Estava vencido, como se soubesse a verdade

Estava lúcido, como se estivesse para morrer

As coisas me apareceram sem cobertas e vi que era tudo gratuito.

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