Sinto o veludo vermelho no meu rosto
Ele se rasga, me jogam no palco
Hesito, mas não tenho escolha
De agora em diante sou livre
Posso representar o que quiser
Desde que represente qualquer coisa
Uma luz estoura na minha visão, alguém tosse
"Anda, comece logo a peça", alguém pensa
Me pergunto o que estes rostos querem ver
Sou um artista imoral, preciso deles para ser
O que esta velha caquética espera de mim?
Velha demais para comédias, velha demais para tragédias
Demasiadamente velha para seja lá o que for
Não farei nada. E ela poderá regozijar-se
Avisto uma caderneta e uma caneta, uma caneta sofisticada
Ah sim, tem também um sujeitinho as segurando
Ele se endireita no assento e suspira. Está impaciente
Aguarda que eu lhe dê algo para anotar. Que situação...
Como isso me deixa inquieto! a caneta começa a sacudir
"Você sabe quem eu sou? não sou uma caneta qualquer!"
As pernas do sujeitinho também sacodem. E a caderneta?
A caderneta é a única que ainda espera pacientemente
Me concentro nela para para ter sossego por um tempo
Mas a humildade da caderneta não vai durar muito
Algo vai acontecer. Vou ser abandonado por todos
Ouço um murmurinho na platéia. Estou exausto
Eles devem ter percebido. A velha me olha com raiva
Fugi do personagem que ela havia projetado em mim
O público me deu um papel e me cobrou uma boa interpretação
Se ao menos me dissessem qual é o papel...
Só sei quem sou olhando para eles. E eles não sabem nada!
Foram quebrados todos os espelhos do teatro, e eles me olham
Se me olham, devem ver alguma coisa. Mas o que?!
Fito a caderneta, uma esperança. Me iludo em vão, ela já titubeia
Sua existência desaba nas pernas do sujeitinho. Espero minha sentença
O teatro se esvazia. Agora tudo me é alheio. Um choro tenta sair
Inútil, não tenho lágrimas dentro de mim. Minhas pernas vacilam, começo a cair
A caderneta volta à minha cabeça e desaba novamente. Isso existe?
Desperto e ainda vejo o sujeitinho deixando o lugar. Isso existe
Finalmente dou com a cara no palco, um barulho seco produz eco
O sujeitinho se vira, levanta a caneta sofisticada com uma mão,
Abre a caderneta com a outra e anota qualquer coisa
Eu tento gritar, mas o grito sai enfermo e a caderneta vai embora
Saiu totalmente indiferente e me privou de mim mesmo
Pensei: "Que direito alguém tem de reduzir um homem a rascunho?"
Mas logo depois ri quando percebi a entonação que dei para "homem"
Ri mais, mais trocistamente quando repeti "direito"
Ria dos que enchem a boca para proclamar os "direitos do homem"
Estava vencido, como se soubesse a verdade
Estava lúcido, como se estivesse para morrer
As coisas me apareceram sem cobertas e vi que era tudo gratuito.
Lindo.
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