domingo, 18 de setembro de 2011

Ouço as conversas cotidianas
E tudo me é alheio
Leio as angústias em verso
E tudo me é alheio
Sou hoje um estrangeiro
Sem as lembranças da minha terra


O mundo anda com os passos de sempre
Já eu não ando mais, flutuo sobre ele
Não há mais pessoas, máquinas, mares
Há um todo fundido, esmagado no mundo
Uma unidade orgânica da qual me privaram


Estou a mais, perceberam e me expulsaram
Tenho coisas em mim que também sobram
Tivesse eu minhas pernas decepadas
E talvez meu eu se dissiparia em alívios
Seria uma solução demasiadamente fácil
Somente as pernas deste exílio sairiam

sábado, 17 de setembro de 2011

O ideal é não ter esperanças
Não projetar, não idealizar
Ver, ouvir, cheirar, tocar
Existir

Que a existência seja tudo
Um fim em si mesma, absoluta

Não farei nada de nobre
E se fizesse? não seria diferente
Do que me adiantaria ser notável?
Cravar meu nome nos livros didáticos
Lembrariam de mim ou do meu nome?

E mesmo que se lembrassem de mim
Já teria passado para me alegrar
E mesmo que ainda não tivesse passado!
E mesmo que...

Sei de tudo isso e ainda espero
Esperar é a causa e a solução
Sei que vou me frustar então sofro
Sei que quando me frustar paro de esperar

Enquanto isso vou esperando
O que espero não sei, não é qualquer coisa
Mas confio no acaso, que é ainda pior
Porque o acaso não pertence a ninguém

Gerúndio

Estou indo, indo, indo
Não preciso mais de nobres justificativas
O que me leva é, sobretudo, uma curiosidade
Não por onde essa correnteza desembocará
Mas pela própria intensidade do fluxo
Por poder olhar para a margem e ver que estou indo
Porque afinal, não chegarei a lugar nenhum
Estarei sempre, e por isso mesmo contente,
Indo

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Sou Livre!
Há tanto o que escolher!
Livre, livre, livre, livre, livre, livre, livre. A linha vai acabar em cinco, quatro, trê

Há um certo limite.

Limitada é a folha
Limita minhas possibilidades
Mas enquanto houver possibilidades
Sou livre.


segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O Teatro do Absurdo

Sinto o veludo vermelho no meu rosto

Ele se rasga, me jogam no palco

Hesito, mas não tenho escolha

De agora em diante sou livre

Posso representar o que quiser

Desde que represente qualquer coisa

Uma luz estoura na minha visão, alguém tosse

"Anda, comece logo a peça", alguém pensa

Me pergunto o que estes rostos querem ver

Sou um artista imoral, preciso deles para ser

O que esta velha caquética espera de mim?

Velha demais para comédias, velha demais para tragédias

Demasiadamente velha para seja lá o que for

Não farei nada. E ela poderá regozijar-se

Avisto uma caderneta e uma caneta, uma caneta sofisticada

Ah sim, tem também um sujeitinho as segurando

Ele se endireita no assento e suspira. Está impaciente

Aguarda que eu lhe dê algo para anotar. Que situação...

Como isso me deixa inquieto! a caneta começa a sacudir

"Você sabe quem eu sou? não sou uma caneta qualquer!"

As pernas do sujeitinho também sacodem. E a caderneta?

A caderneta é a única que ainda espera pacientemente

Me concentro nela para para ter sossego por um tempo

Mas a humildade da caderneta não vai durar muito

Algo vai acontecer. Vou ser abandonado por todos

Ouço um murmurinho na platéia. Estou exausto

Eles devem ter percebido. A velha me olha com raiva

Fugi do personagem que ela havia projetado em mim

O público me deu um papel e me cobrou uma boa interpretação

Se ao menos me dissessem qual é o papel...

Só sei quem sou olhando para eles. E eles não sabem nada!

Foram quebrados todos os espelhos do teatro, e eles me olham

Se me olham, devem ver alguma coisa. Mas o que?!

Fito a caderneta, uma esperança. Me iludo em vão, ela já titubeia

Sua existência desaba nas pernas do sujeitinho. Espero minha sentença

O teatro se esvazia. Agora tudo me é alheio. Um choro tenta sair

Inútil, não tenho lágrimas dentro de mim. Minhas pernas vacilam, começo a cair

A caderneta volta à minha cabeça e desaba novamente. Isso existe?

Desperto e ainda vejo o sujeitinho deixando o lugar. Isso existe

Finalmente dou com a cara no palco, um barulho seco produz eco

O sujeitinho se vira, levanta a caneta sofisticada com uma mão,

Abre a caderneta com a outra e anota qualquer coisa

Eu tento gritar, mas o grito sai enfermo e a caderneta vai embora

Saiu totalmente indiferente e me privou de mim mesmo

Pensei: "Que direito alguém tem de reduzir um homem a rascunho?"

Mas logo depois ri quando percebi a entonação que dei para "homem"

Ri mais, mais trocistamente quando repeti "direito"

Ria dos que enchem a boca para proclamar os "direitos do homem"

Estava vencido, como se soubesse a verdade

Estava lúcido, como se estivesse para morrer

As coisas me apareceram sem cobertas e vi que era tudo gratuito.







Sabeis agora a verdade do que foi, será e é
Da lona circense que cobre todos os sonhos e atos
Façamos o que nos é possível
Participemos desta tragicomédia vulgar
Meus desgraçados iguais, brindemos, antes de tudo
À esta palhaçada que é a minha vida