Nada existido
"Meus desgraçados iguais, brindemos, antes de tudo / À esta palhaçada que é a minha vida"
domingo, 18 de setembro de 2011
E tudo me é alheio
Leio as angústias em verso
E tudo me é alheio
Sou hoje um estrangeiro
Sem as lembranças da minha terra
O mundo anda com os passos de sempre
Já eu não ando mais, flutuo sobre ele
Não há mais pessoas, máquinas, mares
Há um todo fundido, esmagado no mundo
Uma unidade orgânica da qual me privaram
Estou a mais, perceberam e me expulsaram
Tenho coisas em mim que também sobram
Tivesse eu minhas pernas decepadas
E talvez meu eu se dissiparia em alívios
Seria uma solução demasiadamente fácil
Somente as pernas deste exílio sairiam
sábado, 17 de setembro de 2011
Gerúndio
terça-feira, 6 de setembro de 2011
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
O Teatro do Absurdo
Sinto o veludo vermelho no meu rosto
Ele se rasga, me jogam no palco
Hesito, mas não tenho escolha
De agora em diante sou livre
Posso representar o que quiser
Desde que represente qualquer coisa
Uma luz estoura na minha visão, alguém tosse
"Anda, comece logo a peça", alguém pensa
Me pergunto o que estes rostos querem ver
Sou um artista imoral, preciso deles para ser
O que esta velha caquética espera de mim?
Velha demais para comédias, velha demais para tragédias
Demasiadamente velha para seja lá o que for
Não farei nada. E ela poderá regozijar-se
Avisto uma caderneta e uma caneta, uma caneta sofisticada
Ah sim, tem também um sujeitinho as segurando
Ele se endireita no assento e suspira. Está impaciente
Aguarda que eu lhe dê algo para anotar. Que situação...
Como isso me deixa inquieto! a caneta começa a sacudir
"Você sabe quem eu sou? não sou uma caneta qualquer!"
As pernas do sujeitinho também sacodem. E a caderneta?
A caderneta é a única que ainda espera pacientemente
Me concentro nela para para ter sossego por um tempo
Mas a humildade da caderneta não vai durar muito
Algo vai acontecer. Vou ser abandonado por todos
Ouço um murmurinho na platéia. Estou exausto
Eles devem ter percebido. A velha me olha com raiva
Fugi do personagem que ela havia projetado em mim
O público me deu um papel e me cobrou uma boa interpretação
Se ao menos me dissessem qual é o papel...
Só sei quem sou olhando para eles. E eles não sabem nada!
Foram quebrados todos os espelhos do teatro, e eles me olham
Se me olham, devem ver alguma coisa. Mas o que?!
Fito a caderneta, uma esperança. Me iludo em vão, ela já titubeia
Sua existência desaba nas pernas do sujeitinho. Espero minha sentença
O teatro se esvazia. Agora tudo me é alheio. Um choro tenta sair
Inútil, não tenho lágrimas dentro de mim. Minhas pernas vacilam, começo a cair
A caderneta volta à minha cabeça e desaba novamente. Isso existe?
Desperto e ainda vejo o sujeitinho deixando o lugar. Isso existe
Finalmente dou com a cara no palco, um barulho seco produz eco
O sujeitinho se vira, levanta a caneta sofisticada com uma mão,
Abre a caderneta com a outra e anota qualquer coisa
Eu tento gritar, mas o grito sai enfermo e a caderneta vai embora
Saiu totalmente indiferente e me privou de mim mesmo
Pensei: "Que direito alguém tem de reduzir um homem a rascunho?"
Mas logo depois ri quando percebi a entonação que dei para "homem"
Ri mais, mais trocistamente quando repeti "direito"
Ria dos que enchem a boca para proclamar os "direitos do homem"
Estava vencido, como se soubesse a verdade
Estava lúcido, como se estivesse para morrer
As coisas me apareceram sem cobertas e vi que era tudo gratuito.